Trânsito, educação e violência

04/06/2014
Trânsito, educação e violência

 

Trânsito, educação e violência

 

Quando a geração de hoje que transita na quinta dezena do viver, ensaiava os primeiros passos para vida, e ganhava a liberdade de trocar a calça de perna curta pela comprida e também a de sair de casa sem ter uma das mãos agarradas à mão do pai ou da mãe, ou dos avós, estes tinham a preocupação de ministrar a seguinte e reiterada recomendação: cuidado ao atravessar a rua, olhe para um lado e para o outro para se certificar de que não vem nenhum carro! E só depois atravesse a avenida, a rua!

Sem dúvida, esse zelo tinha e tem a intenção de preservar a vida do ente querido com o gesto de precaução e de evitar mal maior, o acidente de ser atropelado, e ou morto no trânsito. Mas, nele ficou implícito, por ausência de um outro alerta, uma outra situação e assim se tornou o efeito colateral danoso daquele excesso de cuidado: qual seja, quem hoje é pedestre amanhã poderá ser o motorista e para este, pelo que se constata, nenhuma recomendação foi dada.

Ao ser enfatizado o gesto de auto prevenção para o pedestre ao cruzar vias de trânsito, este a partir de um determinado estágio da vida, saiu do asfalto e foi para detrás de um volante e, no subconsciente aquela lição mas, nas entre linhas delas, o mais duro e nocivo efeito colateral: a máquina em primeiro lugar em detrimento da vida e, além dessa medonha realidade, os meios de burlas que são empregados para ter às mãos a carteira nacional de habilitação, a CNH e sair por ai avançando sinais, matando e morrendo no asfalto.

Com esse entendimento conclusivo, o que se testemunha e o que mostra a realidade, principalmente em nosso País, é que detemos os maiores índices de violência no trânsito independente de ser urbano ou não e as maiores taxas de óbitos e internações hospitalares, mui especialmente de pessoas da faixa etária até 30 anos de idade, com elevada quantidade de mutilações também.

Além do uso do automóvel, junta-se a de veículos motorizados ou não sobre duas rodas e que, a rigor da maior sensação de liberdade e que, com a implantação do sistema do vale transporte ao trabalhador, onde uma parcela pecuniária é de responsabilidade do empregador, o empregado, deduz-se, passou a negociá-lo – vemos placas anunciando: compra-se vale digital – e com o resultado do comércio, foi financiar a aquisição de motos e até de bicicletas, sendo estes dois últimos de uso tão abrangente que as ciclovias passaram a ser medidas obrigatórias aos governantes, com o objetivo de oferecer maior proteção ao cidadão motociclistas e ciclista.

Mas, mesmo a despeito da orientação para o uso de capacetes, a realidade mostra que o item de proteção é relegado a segundo plano, item sem relevância e que, assim prospera contando com a precária fiscalização das autoridades ligadas  à área, apesar de que os depósitos destinados a apreensão, estarem abarrotados de unidades irregulares.

Na prática foram cedidas, propiciado os meios financeiros da aquisição do bem para locomoção individual mas, a educação quanto as regras do trânsito ficaram abandonadas em algum cruzamento sem nenhuma sinalização ou escondidas pelo jeitinho brasileiro de mãos dadas com a corrupção.

As estatísticas dizem mais que, as internações hospitalares em virtude de acidentes com moto ocupam em torno de 70% dos leitos nos prontos socorros das capitais e hospitais nos municípios dos interiores sob a responsabilidade do SUS e, mesmo a despeito desse informe o que o dia a dia mostra são os mais absurdos procedimentos de irracional imprudência, de imperícia e total perda do instinto de preservação da espécie e assim, passou a ser comum as manchetes: perdeu o controle atropelou e matou 4, 5 ou mais de única vez.

Quanto aos motoristas de coletivos e veículos particulares que cometem estupidez sobre estupidez, não há nem o que mais dizer, pois enquanto o poder público não mudar a penalização para o matar no trânsito, com o entendimento de que um automóvel tem o poder de matar tal como um 38, uma pistola ou uma metralhadora, a situação caótica continuará.

Além do tudo aqui registrado, motos e bicicletas passaram a ser uma espécie de armas na infra estrutura e meios de crimes de roubo ou furto e de execuções, pois com a obrigatoriedade do uso de capacete, este passou a ser uma espécie de máscara a encobrir a face dos criminosos, apesar de que como dito acima, muitos não o usam.

E caso o poder público venha resolver a promover mudança, acrescente-se um dispositivo na legislação que diga o seguinte: matar, aleijar ou inutilizar algum cidadão no trânsito, além das sanções judiciais como prisão e etc... o motorista causador dos malefícios ao dirigir irresponsávelmente, custeará todo o tratamento do acidentado ou o custo do funeral e pagamento de pensão vitalícia ou aposentadoria no caso da impossibilitação para o trabalho ou ocorrência de óbito, pois quem tem carro, a rigor tem meios financeiros.

Talvez, não produza os efeitos positivos que se imagina mas, com certeza já será um caminho a mudar a lição e o entendimento de que a vida do pedestre não tem valor e que a máquina é mais importante do que o viver.

 

Lúcio Reis 

 

Fonte: Portal AVSPE (Academia Virtual Sala dos Poetas e Escritores)

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