O trânsito é feito pelas pessoas e para as pessoas

05/06/2014
O trânsito é feito pelas pessoas e para as pessoas

 

 

O trânsito é feito pelas pessoas e para as pessoas

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Desde que o mundo é mundo, as pessoas circulam e se movimentam de um lado a outro e isso é mais antigo do que andar para a frente. Em todos os discursos sobre mobilidade urbana, circulação e trânsito as pessoas são o foco, a prioridade. Falar em fazer uma cidade e um trânsito para as pessoas também foi mote de campanha política. Mas, e no dia a dia? No cotidiano? No “pega prá capar”, qual a importância que tem as pessoas?

 Uma das definições mais apropriadas de trânsito é aquela que o define como um espaço compartilhado por todos que nele circulam. Um sistema formado pelo homem, a via e o veículo.

Embora o homem seja considerado por Reinier Rozestraten o elemento ou fator mais complexo desse sistema e o único capaz de desequilibrá-lo com seus comportamentos, tudo o que se faz e se pensa é em função dos carros. Até quando se fala em trânsito a primeira coisa que vem em mente à maioria das pessoas são os carros.

O tempo de abertura e fechamento de um semáforo ou de uma sinaleira para pedestres não leva em conta as reais necessidades das pessoas no trânsito, mas sim, as consequências de uma fila enorme de carros parada por muito tempo e o estresse que isso pode causar aos motoristas, além do engarrafamento e a lentidão que comprometem a trafegabilidade.

Em alguns pontos da cidade, o tempo de abertura e fechamento do sinal luminoso para o pedestre atravessar é de 6 a 10 ou 12 segundos. Os técnicos consideram esse tempo normal, ideal, adequado para as condições do local. Mas, será que levaram em consideração as condições de mobilidade reduzida de idosos, cadeirantes, pessoas que se apoiam em muletas e andadores? Ou só levaram em conta o pedestre bom das pernas e que pode dar aquela apressadinha no passo?

Ok. As pessoas são mais importantes que os carros, mas elas não tem calçadas para circularem com segurança e assim os mais frágeis no trânsito, tais como idosos, cadeirantes, pessoas que precisam do apoio de muletas, mamães com carrinho de bebê, crianças, tem que disputar espaço com carros em via pública.

Olhem na foto este trecho da Rua Governador Jorge Lacerda, na Velha, e me digam como uma pessoa com mobilidade reduzida consegue trafegar com segurança. Pensem agora num idoso de bengalas, num cego, numa pessoa atolando a cadeira de rodas na lama ou tendo de desviar e caminhar na pista de rolamento disputando espaço com os carros.

Faz tempo que a ONU reconheceu que a bicicleta não é só um meio de transporte de baixo carbono, mas, principalmente, é benéfica para a saúde das pessoas, ajuda a fazer amigos e uma importante ferramenta para o desenvolvimento sustentável.

Cabe aqui lembrar que o conceito de desenvolvimento sustentável foi desenvolvido pela então primeira ministra da Noruega, Gro Harlem Brundtland, enquanto a capacidade de atender e satisfazer as necessidades das gerações presentes sem comprometer a satisfação das necessidades das gerações futuras.

Mas, como pedalar com segurança numa cidade que não oferece segurança ao ciclista? Acompanho e apoio nas redes sociais o trabalho da ABC Ciclovias e de seus membros e simpatizantes. Pessoas que conhecem bem a bicicleta e todas as vantagens que ela proporciona, mas acima de tudo, priorizam os comportamentos defensivos, os equipamentos de segurança da bike e do ciclista, mas que ainda assim não escapam da colisão com os carros.

O trânsito é feito de pessoas e para as pessoas, Blumenau tem uma identidade cultural ligada à bicicleta, diariamente centenas de pessoas se deslocam para o trabalho, para a escola, para o lazer, para a faculdade de bicicleta e ainda não se valorizou e aproveitou a contribuição que a turma da bike tem para oferecer a um trabalho permanente de educação para o trânsito sobre duas rodas.

Cada vez que uma pessoa é atropelada em cima da faixa de pedestres, cada vez que um ciclista se envolve em acidente de trânsito, cada vez que uma criança ou idoso é atropelado no trânsito eu coloco em cheque esse discurso ensaiado de que se pensa na segurança das pessoas no trânsito. Tenho receio de que a preocupação seja só com a segurança das pessoas dentro dos carros.

É certo que as pessoas que estão aí para cuidar do trânsito de Blumenau estão buscando soluções para a mobilidade urbana no trânsito, estão viajando para conhecer os exemplos que deram certo e tem pela frente o enorme desafio de tentar evitar o colapso anunciado com tanto carro na rua.

É de tirar o chapéu para a Guarda Municipal de Trânsito e para a Polícia Militar, que estão pegando firme nas blitz pela cidade. Só na semana passada fui parada em duas em dois pontos bem diferentes da cidade.

Tivemos a Semana Municipal de Segurança do Motociclista, algo inédito em Blumenau até então, e torço para que mais ações educativas e preventivas venham por aí. Mas, o que estamos fazendo efetivamente pelo elemento humano no trânsito de Blumenau? Pelo ciclista, pelo catador de reciclados que conduz um veículo de tração humana, pelo idoso, pelo cadeirante, pelas gestantes, pelos deficientes e demais pedestres?

Infelizmente, quando se fala em trânsito a primeira coisa que se pensa é nos carros e nas motos. Mas, será que eles são realmente a maioria? Ou são as pessoas?

O próprio emblema, a logo da Escola Pública de Trânsito de Blumenau é um carro com uma auréola, aquele anel dourado que fica em cima da cabeça dos anjos, no centro de uma placa de advertência. Mas, o mais importante, o elo mais fraco da cadeia e a prioridade no trânsito não são as pessoas?

Deus nos livre da humanização do carro e da geração Transformers, aqueles com a fantástica capacidade de se transformar em super máquinas inócuas.

Fonte: Abetran

Foto: Patrick Rodrigues.


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