O arquiteto e o cretino

14/02/2015
O arquiteto e o cretino

O arquiteto e o cretino

O arquiteto Paulo Mendes da Rocha é contundente ao falar de São Paulo, mas podia dizer o mesmo de qualquer cidade brasileira

Fonte: O Globo 

Outro dia um amigo me perguntou se eu odeio automóvel. Respondi que não, mas que também não concordo com a dependência que se cria em torno dele. Assim como não odeio cerveja (muito pelo contrário!), mas não concordo com a propaganda que a indústria faz, como já comentei aqui neste espaço. Não sei se consegui convencer meu amigo, o que me deixa um tanto preocupado – se não estou sendo claro nas conversas pessoais, devo estar me saindo ainda pior na exposição escrita.

Por isso fiquei muito feliz ao ler a entrevista que o arquiteto Paulo Mendes da Rocha deu ao El País, publicada no portal do jornal na última segunda-feira, com a chamada “O que está em debate em São Paulo é a estupidez do automóvel”. Feliz e, claro, cada vez mais ciente de minha limitadíssima capacidade de argumentação. Porque, diferentemente de mim, o consagrado arquiteto consegue mostrar, de forma clara e direta, com exemplos inequívocos, o que somos capazes de fazer com nossas cidades – ele fala de São Paulo, mas podia ser qualquer outra – por não conseguirmos pensar a vida sem carro.

Essa crônica dependência é bem ilustrada na passagem em que o arquiteto diz que “você queima o petróleo para levar uma lataria que pesa 700 quilos e lá dentro tem um cretino de 70 quilos. Alguma coisa está errada”. De fato, muita coisa deve estar errada para celebrarmos por mais de um século o sucesso dessa máquina fabulosa, que usa incríveis 90% da energia que consome para transportar a si própria! Isso sem falar no espaço que ocupa quando está parada, esperando o dono lhe levar para o próximo passeio...

A linguagem de Paulo Mendes da Rocha é forte e pode melindrar leitores mais sensíveis. Mas é importante pensarmos no cretinismo que nos atinge. Primeiro, julgo necessário identificarmos os cretinos individuais, os agentes desse modelo excludente de cidade, tão bem caracterizado na entrevista. É uma tarefa um tanto trabalhosa, mas talvez seja a parte mais fácil.

O mais difícil será encararmos o cretinismo coletivo. Não falo de cada um de nós buscar a carapuça que nos cabe – isso continuaria pertencendo à categoria do cretinismo individual. Falo de assumirmos uma atitude nova em relação ao uso do automóvel. Sem satanizações (eu mesmo gosto de dirigir meu próprio carro, assim como aprecio cerveja, embora em momentos diferentes). A atitude nova é a disposição de assumir, sem mimimi, a responsabilidade pelos ônus decorrentes de nossa opção. Afinal, não é justo que esses custos – sociais, econômicos, ambientais – sejam arcados por todos, principalmente por quem não tem o bônus do carro.

Paulo Cesar Marques da SilvaEngenheiro, doutor em estudos de transportes pela University College London (Reino Unido), é professor do Departamento de Engenharia Civil e Ambiental da Universidade de Brasília. 

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