Nem tudo que reluz é ouro

23/02/2015
Nem tudo que reluz é ouro

Nem tudo que reluz é ouro

 

 por Almir Gonçalves

 

  

Recentemente li uma matéria exaltando a redução do número de óbitos por acidentes automobilísticos no trânsito brasileiro, a maior desde 1998, e destacando o resultado expressivo alcançado pelo RJ (Rio de Janeiro), uma queda de 44%, de 3.047 óbitos em 2012 para 1.692 óbitos em 2013. O texto atribuía a Lei Seca como principal motivo desta conquista pelo RJ.

Quando li esta noticia eu poderia ter algumas reações, como esperança e alegria. Esperança por um Brasil mais seguro no trânsito e alegria em saber que milhares de pessoas deixaram de morrer em nosso caótico trânsito brasileiro. Bem, eu teria essas reações caso não tivesse conhecimento de causa, pois com 16 anos de experiência como agente de trânsito e nos últimos 05 anos trabalhando com estatísticas de acidentes de trânsito, a reação foi única e veio com a seguinte pergunta: Será que os dados estão certos?

Para tirar minhas conclusões utilizei a seguinte linha de raciocínio: Se reduzirmos o número de mortes (óbitos) por acidentes de trânsito, consequentemente reduzimos o número de mortes por causas externas (mortes violentas), correto? Isso é um fato.

Então acessando o site do governo federal, DATASUS, nas Informações de saúde, Estatísticas Vitais, Óbitos por causas externas, consegui as informações necessárias para minhas conclusões. Vou mostrar somente as informações que achei mais relevantes para o assunto.

ÓBITOS POR CAUSAS EXTERNAS (GRUPO CID10) / Óbitos por ocorrência

  Brasil Rio de Janeiro Brasil Rio Janeiro
  2012 2013 2012 2013
TOTAL DE ÓBITOS 152.013 150.310 13.105 13.361
. Acidentes de transporte 46.051 41.645 3.068 1.710
Outras causas / quedas 11.649 11.582 1.127 762
Evento cuja intenção é indeterminada 10.051 14.845 1.572 5.092

Inclui as informações sobre quedas porque muitas vezes quando um ciclista ou motociclista cai na via sem nenhuma interferência de outro veículo ou objeto é comum encontrar o registro deste tipo de ocorrência feito como queda e não como acidente de trânsito.

Dos dados que observei, os que mais me chamaram a atenção foram os que estão em destaque. Como havia dito anteriormente, uma redução no total de óbitos por causas externas deveria ser esperado. Mas o que vemos é uma redução de somente 1,12% no Brasil e um aumento de 1,95 % no RJ. O que aconteceu então? Talvez a resposta esteja na informação, EVENTO CUJA INTENÇÃO É INDETERMINADA, ou seja, não sabemos (ou não registramos corretamente) o fato que ocasionou a morte.

O aumento destes números, 47,7% no Brasil e 223,9% no RJ, mostra uma fragilidade na informação capaz de comprometer em muito as análises, metas e resultados esperados. Posso estar errado nas minhas conclusões, talvez as 5.092 mortes no RJ (34,3% de todo Brasil), ou parte delas, não tenham sido por acidente de trânsito e aconteceram realmente por intenções impossíveis de determinar. Mas é sempre bom lembrar que, NEM TUDO QUE RELUZ É OURO.


Almir Gonçalves*
Matemático e agente de trânsito especializado em Estatísticas de Acidentes de Trânsito em São José dos Campos – SP almir.goncalves@sjc.sp.gov.br; almirrodolfo@yahoo.com.br


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