Bloqueio ou locaute?

06/03/2015
Bloqueio ou locaute?

Bloqueio ou locaute?

A mesma rapidez com que vimos sancionada a lei que perdoa infratores bem que podia ser usada para conhecermos quem está promovendo desabastecimento no país

Fonte: O Globo 05/03/2015 

O anexo de uma mensagem que recebi dias atrás era a capa de Estadão de 7 de janeiro de 1986. Quase três décadas atrás, a principal manchete era “Caminhões param outra vez; rodovias bloqueadas”. (Outra manchete dizia “A Sabesp já prevê que o racionamento aumenta”, mas isso já não é assunto meu.)

Achei curiosa a sensação de déjà-vu, mas não a ponto de me dedicar a analisar e comparar os conteúdos das notícias de então e dos dias atuais. De certo modo, contentei-me com a possibilidade de a data daquela primeira página explicar minha falta de paciência para acompanhar o enfadonho noticiário de hoje.

No entanto, vendo os pontos que a imprensa destacou na lei sancionada pela presidenta da república na segunda-feira, dia 2, fiquei com uma pulga atrás da orelha. Ainda que sem ler o texto legal, tive a forte impressão de que, em lugar de atender reivindicações de uma categoria profissional, a sanção sem vetos respondeu diretamente aos interesses das empresas transportadoras, empregadoras de pequena parte dos caminhoneiros.

Sei que posso soar extremamente anacrônico aos leitores da era pós-Fukuyama, mas não sou muito facilmente convencido das convergências entre capital e trabalho. Quando vejo notícias dessas alianças, sempre desconfio de que algo espúrio esteja sendo urdido fora do alcance de nossos olhos e ouvidos. Como não vejo evidências de que o capital tenha deixado de ser o lado mais forte, sou levado a pensar que, em vez de convergência, o que ocorre nesses casos é algum tipo de subjugação do trabalho.

Além disso, sabendo que mais de 80% dos registros de veículos rodoviários de carga está nas mãos de caminhoneiros autônomos, vinha dando crédito ao protagonismo deles nas manifestações das duas últimas semanas. O que não explicava o silêncio das empresas transportadoras. Afinal, segundo minha lógica pré-fukuyâmica, patrões e empregados não estariam absolutamente solidários em tudo. O que faltava, então, nessa narrativa?

Talvez a resposta esteja em um vídeo postado na internet na mesma segunda-feira em que a presidenta sancionou a lei. Nele aparecem motoristas autônomos denunciando ações violentas de constrangimento contra os colegas que decidiam seguir suas viagens, com supostas garantias das autoridades policiais. Um dos denunciantes define sua situação como de cárcere privado. Há relatos de agressões a motoristas e depredações de caminhões. Não seria o caso de nossas autoridades apurarem essas denúncias com a mesma presteza com que atenderam às demandas do patronato?

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